[os que seguem]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sem Título

e todo mundo finge um pouco:

uns que trabalham muito
outros que não tem trabalho
alguns dizem estar bem
outros nem tanto

uns que a vida é dura
outros que não é tão difícil
alguns dizem estar bem
outros nem tanto

uns que não tem tempo
outros que já foi o tempo
alguns dizem estar bem
outros nem tanto

mas,

perdão aos que amam em vão
amar não se finge não
ou se sente ou se sente

sábado, 8 de maio de 2010

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. VII] - Mahina

Capítulo VII

Mahina

Adormece. Sonha. Sem sentido. Alta velocidade. Explosão. Acorda. Um banho para redenção. Sábado. O sábado era seu dia preferido. Era dia de passar o dia no lago. O lago ficava a alguns minutos de sua casa. Seu avô possuía uma pequena choupana bem próxima ao lago. Lá ele guardava seu caiaque. Era seu esporte favorito. Ficar horas e horas remando de um lado para o outro do lago tentando sempre bater seus melhores tempos. Mas, um sábado que seria como outro qualquer guardava muito mais do que ele poderia supor.

A primeira surpresa foi ele encontrar a sua vizinha que, mais uma vez, bombardeava-o com olhares indecifráveis. Ela estava próximo à choupana do seu avô. Parecia estar em família. Ele, mais uma vez, sozinho. Entra na choupana e põem-se a procurar seu caiaque. Mas encontraria bem mais do que o seu velho caiaque. Em um baú, lacrado por um cadeado bem antigo, um segredo escondido adormecia. Aquilo o intrigou. Nunca, antes, havia visto aquele velho baú na choupana de seu avô. De fato existiam muitas coisas estranhas lá, trazidas das viagens que seu avô fazia pelo mundo em suas expedições. Mas seu avô não havia voltado. Havia?

Curioso, procurou algo com que pudesse abrir o velho baú. Abri-o. Dentro, encontra uma porção de papéis antigos, porém um o chama a atenção. Referia-se ao lago. Era feito um mapa. Guardou-o. Não queria ater-se a isso agora. Agora era hora de remar.

Após todo o cansativo treino com seu caiaque, volta ele para a margem do lago em frente à velha choupana, onde, parada, como se o esperasse, encontra-se sua vizinha, Mahina. Tímida, o cumprimenta: “Olá! Como vai?”. Ele, também tímido, responde: “Vou bem! E você?”.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. VI] - Mahina

Capítulo VI

Mahina

A figura da menina o atormentava. Não sabia o que os olhares dela o julgando queriam falar. Sabia, ao menos, que ela o atraía. Talvez fosse uma chance de abrir a janela e deixar o vento entrar. Sabia, também, que ao deixar o vento entrar muitas das coisas não bem fixadas poderiam voar e perder-se. Pagaria o preço? Não é momento.

Havia algo de grande que ele queria. Um lamento mudo em seu peito não o deixava quieto. Não tinha certeza do que era aquilo. Talvez fosse só mais um devaneio. Mas poderia ser algo mais, mesmo que não fosse de crendices, acreditava, ele, que poderia ser algo mais. Talvez quisesse justificar a sua existência. Talvez quisesse ser notado por um feito como os grandes heróis da humanidade. Talvez não fosse nada.

Agora, por hora, era hora de tocar sua faculdade. Pôs-se a praticar os exercícios passados pelos professores. Concentrado. A mecânica do estudo vazia-o abstrair todos os pensamentos. Era de se admirar a sua concentração e dedicação. Mesmo que não fosse o mais brilhante, era sem dúvidas um dos mais esforçados.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010



ando só
pois só eu sei
pra onde ir
por onde andei

[Não faço idéia se ando só. Deve ser a coisa certa a se fazer. Dizer que se anda só não é ser só. É seguir o que se tem como certo. Sonhos, metas, desejos, objetivos...]

ando só
nem sei por que
não me pergunte
o que eu não sei

[E é bem comodo, diria eu, não saber o porquê. As coisas que não se explicam não serão explicadas. Basta andar.]

pergunte ao pó
desça o porão
siga aquele carro
ou as pegadas que eu deixei

[E andando, muitos caminhos aparecem. Seguir o certo? Não creio nisso. Seguir um caminho: nisso eu creio.]

pergunte ao pó
por onde andei
há um mapa dos meus passos
nos pedaços que eu deixei

[E a cada passo, vestígios nossos são deixados. Coisas boas ou não, é mais uma escolha.]

desate o nó
que te prendeu
a uma pessoa
que nunca te mereceu

[Como, escolha, também, é deixar para trás quem não nos é útil. Enchergar merecimento... nossa! é muito difícil.]

desate o nó
que nos uniu
num desatino
um desafio

[Desate! Aprendi que somos capazes de suportar muito do que pensamos insuportável. Ao tempo, tudo passa.]

ando só
como um pássaro voando

[Liberdade!]

ando só
como se voasse em bando

[Estamos sozinhos entre os homens e ligados a tudo o que há no mundo.]

ando só
pois só eu sei andar

[Poucos, pouquissímos, compartilham da mesma visão. Seria até monótono se fosse diferente.]

sem saber até quando
ando só

[Andar só e não esquecer quem o merece. Talvez seja o melhor caminho! Talvez.]

(Ando só - Engenheiros do Hawaii)

"O presente do mar é o vento forte e, assim, a chance de sentir-se forte. Agora, ainda não sei muito sobre o mar, só sei que é do jeito que é... e, também sei o quão importante na vida é, não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte, para avaliar-se ao menos uma vez, encontrar-se ao menos uma vez nas condições de nossos ancestrais, encarando a escuridão e o silêncio sozinho sem nenhuma ajuda além de suas mãos e mente."

(Into the Wild)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Amor é Castelo

Para um mero transeunte a metáfora “Amor é um Castelo” não faria sentido algum. Os Castelos são construídos empilhando-se blocos de pedra, um a um. Com o Amor acontece a mesma coisa.

Cada peça encaixada corresponde a um sentimento que se faz necessário para se aprender a amar. Temos peças variadas: Paixão, Ódio, Ternura, Tristeza, Alegria, Confusão, Desejo, Medo, Coragem, Dúvida...

A cada peça empilhada, faz-se necessário também o uso de um bom cimento, algo que una todas elas em uma estrutura aparentemente sólida, ouça-me bem, aparentemente sólida, e nada melhor do que atribuir essa função à Confiança.

Haverá momentos em que virão tempestades, pois não é uma tarefa rápida, leva-se muito tempo o construir amor e, por isso, os maus momentos virão e quando acontecer é preciso um adicional ao cimento: a Paciência.

Um castelo tem muitos aposentos. Castelos têm torres e calabouços. Prisões. O Amor possui os seus grilhões. Rompê-los exige muito Desejo e Coragem. É preciso força sempre! Mas existem os cômodos de luxo, aposentos reais. São eles os bons e belos momentos que se tornam únicos e imutáveis.

As construções são suscetíveis à falha. Os blocos erguidos com as peças podem desmoronar. É preciso sempre reforçar os laços. Usar quantidades grandes de cimento. Saber reconstruir é necessário!

Porém, não é sempre que a vontade é de dois e, quando não, a cada peça retirada, uma imensa dor se faz presente no peito. Dia a dia, uma a uma. Todas retiradas com maestria e guardadas numa bela caixa. Prontas para serem usadas novamente na construção que é querer amar.

Desempilhadas e espalhadas pelo chão, todas as peças agora esperam ansiosas pela perícia de dois seres na busca do encaixe perfeito.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. V] - Fragmentos

Capítulo V

Fragmentos

Nunca foi, também, de ter muitos amigos e conhecidos. Tornou-se uma sombra por onde andava. Seu impoluto visual o destacava, é bem verdade, mas logo se perdia na multidão. Era aplicado, mesmo com suas limitação, nas coisas que se propunha a fazer. Os poucos com que falava lhe eram até razoáveis, pois via neles um pouco dos mesmos sentimentos que carregava.

O dia se passa lento. Seu maior desejo é que ele acabe para que se refugie em sua casa. Acaba. Toma o ônibus. Dia chuvoso e frio. Ele gostava desse clima. Mais um dia cinza. No ônibus percebe sua vizinha, amiga no tempo de infância. Ele percebe que ela o percebe. Mas não ensaia qualquer movimento para cumprimentá-la. Senta. Coloca seus fones de ouvido e mergulha em seus devaneios.

Natal de 1980. Quatorze anos de idade. Lembra-se de como foi bom todas as horas desse dia. Tinha para si que realmente aquele foi o melhor dia da sua vida. Todos, absolutamente todos, estavam felizes e era sincero o estar feliz. Acordou cedo para ajudar nos preparativos: conferir a árvore de Natal era das suas tarefas a favorita; ajudar com a preparação da ceia, era muito divertido, sempre sobravam os restinhos para comer e sempre se fazia muita sujeira e, parece que sujeira atrai os com alma de criança; comprar lenha para a lareira com seu pai no velho pick-up; tudo era bom.

As gotas de chuva caem na janela do ônibus e fazem desenhos ininteligíveis, mas que para ele eram rostos, formas geométricas, lugares, paisagens. Aproxima-se do seu ponto de chegada. Desce do ônibus e lança um olhar meio de lado, já saindo, para a garota, sua vizinha. Ela o observa atentamente, como se decorasse seus movimentos. Menina recatada, tímida, era ela.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. IV] - Fragmentos

Capítulo IV

Fragmentos

Sentado à mesa do jantar, tanta coisa que queria ser dita, mas é contida, é adiada e perdida. Seu pai mais uma vez, com olhar impetuoso, olha-o atentamente. É sabido por ele que mais uma vez será ouvido o sermão de como se deve proceder na vida. É fato que para ele era por demais cansativo e exasperante ouvir todas aquelas palavras sempre e sempre. Mas, como também de costume, mostrava-se entretido e interessado no que seu progenitor falava, mesmo, é claro, que nada fosse absorvido.

Nenhuma palavra de sua boca é pronunciada até o fim da refeição. Sobe como um sólido para seu quarto. Antes, passa os olhos nos quadros com sorrisos sinceros a condená-lo. Aquilo o faz desistir de sua idéia original: trancar-se em seu quarto. Lembra-se de seu prazer antigo: tocar seu velho violão.

Ao entrar em seu quarto deparasse com seu velho amigo encostado num canto de parede. O pega e vai para a varanda. Recosta-se numa, também velha, cadeira e põe-se a tocar suas canções preferidas. Já é metade da noite. O céu está limpo e negro. As estrelas, lá de cima, brilham sem motivos. Apenas brilham. Ele percebe que não é mais o garoto tímido e medroso de antes, mas considera muito a idéia de que também não é o que esperava. Percebe seu lugar de descanso favorito, uma rede ao canto da varanda de onde se viam as árvores num balé infinito ao ritmo do vento. Deita-se e põe-se a pensar.

Pensa em toda a sua linda infância. Nos bons momentos com os seus amigos na escola. Lembra-se do dia em que a menina mais bonita o chamou para dançar e, de como se sentiu onipotente, pois todos os outros o olhavam diferente, agora. Era o maioral, nem que fosse por alguns dias. Lembrou-se de como sempre foi querido em qualquer lugar que freqüentava e de como pessoas faziam questão de sua presença e, de como não era preciso fazer força alguma para isso. Um sentimento nostálgico o tomou conta. Era sozinho. Não que o fosse por que queria. Era destino. Lembrou-se das inúmeras vezes em que, sozinho, reproduziu inúmeras e inúmeras estórias e histórias que ouvia seja dos mais velhos, mais novos, TV. Sua imaginação sempre lhe foi fiel e preenchia o espaço que seria das pessoas. Adormece.

Acorda com os primeiros raios de sol. Sente-se leve. Daria até para fugir do habitual. Mas lembra-se de que deve ir para a faculdade. Construir seu futuro. Ser o que se quer. O que o confortava era que, realmente, gostava do que estudava. Nunca foi e nem era sua pretensão ser dos mais brilhantes. Era só a forma encontrada de conseguir algumas coisas que sempre desejou.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. III] - Fragmentos

Capítulo III

Fragmentos

Impregnado por seu desejo, caminha, ele, para um banho de regeneração. A água cai em sua cabeça, fria, tal qual águas que banham os lugares árticos. É desperto. Lucidez. Palidez. Olha-se atentamente no espelho do banheiro, impoluto impecável banheiro, pois o pobre, de transtornos, sofria. “Quem penso que sou?” – a pergunta ecoa por toda a gigante extensão do vazio e cheio que é sua mente. Não há resposta satisfazível.

Mais uma vez veste-se com sua calça jeans e suas camisas brancas de algodão! Quer, agora, desbravar sua vizinhança. “Onde estará?” – lembra-se que não é sabido o lugar de repouso de seu MP4. Não o poderia fazer sem seu aparelho cúmplice da fuga. Ajudava-o a abstrair toda a bizarrice dos humanos donos de si. Sua antipatia e egocentrismo afastavam-o de fato de qualquer evolução de Homo Erectus que se mostrasse prestativa.

Caminha, ele, na rua, por Outono, coberta de folhas de plátanos. Dia, como habitual, frio e molhado, o que, para ele, era, sem dúvida, dos melhores dias do ano. Sua figura vagava lentamente por toda a calçada, com passos tímidos e sem pressa de chegar, indo de encontro ao seu refúgio de todo o erro do planeta: o fim do bairro.

O fim do bairro mais parecia um abismo sem fim. Crianças desvairadas arriscavam-se em brincar por perto de tal precipício. Dia sombrio, aquele, em que o pequeno da casa ao lado caiu, num deslize infame, morro abaixo. Dia dos piores dias da vida do povo da casa ao lado. Mas, o fim do bairro não é de todo mau. Casais teimam em constranger os anciãos com suspiros e gemidos atrevidos. Mas, para ele, nada disso importava. Aquele era o lugar do pôr-do-sol mais belo que olhos terráqueos poderiam um dia deslumbrar. Por minutos, via seu íntimo aquietar-se. Sentia, nem que por instantes, paz.

Paz que, em meio ao caldeirão de perguntas, fazia-se por meros segundos. Mas era liberto naqueles poucos segundos. Daí tal gozo em prostrar-se na árvore mais ao alto do fim do bairro para ouvir suas músicas ou, ouvir seus pensamentos.

Na volta, pela rua, percebia-se os olhares de toda a gente a julgar figura mais intrigante. Não fazia perceber-se. Mas era ineficaz. Era perceptível até para o mais negligente. E era sabido por ele. Mas sua arrogância vencia qualquer crítica que lhe faziam por olhares, afinal, sabia ele, que todos, por mais desinformado que fosse, sabiam o que houvera passado. Não era um segredo e sim, um outdoor.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. II] - Mescalina

Capítulo II

Mescalina

Pequeno buraco imenso e infinito. Acorda. Tudo é bem claro e branco. Mas não se vê nada. Mas tudo muda. Agora tudo lhe parece familiar. Mas muda. Um túnel com cores e muitas formas. Não entende. Acordado? Caminha. Sente uma leve tontura e fraqueza, além de euforia e alegria momentâneas. Sente-se como se não houvesse mais o peso. Tudo é leve. Sente-se em plenitude. Estado de encontro consigo. Agora, parece até fácil entender-se. Ao longe avista seu amigo louva-deus. Ela? Não seria ela. Seria ela! É ela. Em sua cabeça confusa nada mais faz sentido.

Ele corre para junto dela. É de fato ela. Olham-se atentamente, como se mapeando o rosto e corpo de cada um. O abraço mais sincero e justo foi dado. Não é o bastante. Beijam-se como se não houvesse mais um outro dia. As mãos passeiam por entre as curvas. E tudo é desejo. Ela pára. Bate em seu rosto. Por quê? Ele a olha como um cão no cio. Avança num movimento brusco, bruto, animal. Arranca sua blusa e começa a beijá-la com força. Nem mesmo ele sabia que era capaz de tal feito. Ele percebe que ela perde as forças pouco a pouco. Lambe-a por todo colo, indo de encontro à boca. Saliva-a por todo o corpo. Suas línguas entrelaçam-se. Parece que todo o líquido não é o bastante. Em mais um movimento forte a joga no chão. Arranca dela sua calça. Rasga sua camisa. Avança seu corpo ao dela abrindo de súbito suas pernas. Morde seu queixo e a beija com mais força. Olha para seus olhos: ela não esconde mais. Lentamente, não deixando nenhuma parte de seu corpo sem ser molhada por sua língua insaciável, de modo safado, usando os dentes, tira dela a última veste. Toda a sua vergonha agora é visível. Sua incansável língua, suavemente, a faz falar em gemidos sólidos e abafados por seu orgulho. Suas mãos gananciosas confortam-se nos seus seios. O prazer toma-a por completo. Ele despe-se como o soldado mais aplicado de um pelotão. Seus corpos nus enrroscam-se. O que antes era dois, agora é um. Com movimentos suaves começam a dança frenética do sexo. Movimentos, esses, que se intensificam. São rápidos e fortes. Poderia o prazer matar? Morreriam se assim o fosse. Desejo, cheiro, suor, pêlos, pele, língua, saliva. Acorda.

A casa parecia a imensidão de seu coração [Cap. I] - Afundar-se

Capítulo I

Afundar-se

A casa parecia a imensidão de seu coração. Porém, vazia, tal qual a vida naquele instante. Não sabia ele onde andavam todos os sonhos plantados ao longo de sua existência. Talvez um grande vento levou-os todos embora. Agora resta continuar como se todo dia fosse igual. Almejar um bem maior no futuro próximo. Sobram apenas os seus devaneios que o torturam e ele não sabe o porquê. Ele não quer saber o porquê. É cansativo demais tentar decifrar todos os quês dos poréns.

E mais um dia se passa em sua vida que, agora, resulta-se inútil. É o que o seu coração fatigado sente. Inutilidade. E não há beijo de namorada e afago de amigo que o faça reclinar em sua imersão no mais obscuro lugar de sua mente. Afoga-se em suas dores e mágoas. Em seu medo e solidão. Escolheu ser assim. Não soube dividir cousa alguma, apenas somar para si. Somar o nada, pois só a divisão forma o tudo. E nada que eles digam, absolutamente nada, o fará desistir de sua luta contra si mesmo.

No terceiro dia ele repara que há mais do que um quarto escuro e suas músicas. Here comes the sun! Passa agora a tentar iluminar sua mente e seus sentidos. Usa-os. Porém a inebriante vontade de se ser estático é mais e mais forte e forte. Ele não resiste. É mais uma vez vencido. E tudo a sua volta, volta a ser como era antes: negro.

Mas há uma esperança em seu peito. Ainda espera ele um dia que ela volte. Sim, que ela volte! Inútil espera, bem sabe ele. É o que resta de luz dentro de si. Deve ele, multiplicar seus espelhos, afim de que a luz, também, seja multiplicada e propagada e tudo volte a ser como outrora. Sim, os dias eram bons em sua vida. Eram até doces. Não havia ânsias. Não havia tanto medo de ser o que se é. Não havia medo da vida. Nem ao menos havia tanta preocupação em ter o que não se tem ou planejar o que se quer ser. Apenas se era como se é.

Logo toda esperança é perdida. A luta se intensifica. Tudo agora é mais negro do que era. Tudo faz menos sentido e menos tudo. Tudo é menos. Menos vontade, menos desejo, menos alegria, oh, pobre alegria, há tempos não o fazia sequer uma visita de enfermo. Mergulhado, afundado. Espantou os poucos amigos que restavam em um gesto dos mais fortes e estúpidos de puro egoísmo. “Qual será minha saída?” – pensa ele. Mas, até a mais óbvia lhe parece assustadora. Não concebe a idéia de ser apagado. De se apagar. Entra em conflito. Empurra mais e mais o seu eu no que ele chama de lugar onde não estou.

E as horas passam e nada acontece. Nem mesmo o louva-deus que o fazia companhia aparece mais. "Hey, louva-deus, onde estás que não mais me ouve? Foste para um lugar melhor, creio eu." Agora, mais que nunca, ele percebe que está íntimo da solidão. A dor vigente e pungente em sua mente o faz furioso. Todo o quarto está em ruínas. As fotos pelo chão. Pedaços de sonhos destruídos. Sorrisos falsos dilacerados. Adormece.